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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O Cristo casado: percepções mórmons sobre o matrimônio do messias


O que são os homens? Deuses mortais.


O que são os deuses? Homens imortais

Heráclito









Maria Madalena, pintura de Anthony F. A. Sandys (aprox. 1858-60)

Dada a importância que a unidade familiar tem na doutrina mórmon, muitas das concepções sud sobre a deidade buscaram identificar os mesmos padrões de relacionamento familiar existentes entre os mortais também entre os deuses.

A vida de Jesus Cristo é apenas brevemente relatada nos registros que chegaram a nós como o Novo Testamento. Várias lacunas são visíveis nesses relatos, abrindo espaço para dúvidas e especulações sobre a figura mais importante e influente da história. Entre estas lacunas está a relação familiar de Jesus.

Há alguns anos, o livro de Dan Brown, O Código Da Vinci, causou polêmica no mundo cristão ao falar da possibilidade de Jesus Cristo ter sido casado e deixado descendentes. Ainda que o tema seja tratado - na minha opinião - de forma superficial, e sugerindo seu matrimônio e linhagem como provas contrárias à sua natureza e missão divinas, tal obra teve o mérito de fazer as pessoas confrontarem algumas noções falsas herdadas de suas tradições culturais e religiosas que retratam Cristo como um ser celibatário ou assexuado.

Mais de um século e meio antes de Dan Brown, neste continente, um grupo religioso muito mal visto pelo mundo da sua época foi quem primeiro ensinou publicamente o fato de Jesus Cristo, o Filho do Deus Vivo, ter sido casado e deixado descendência. Esse grupo passou à história sob o nome de "mórmons".

Infelizmente, os herdeiros dessa tradição religiosa, hoje espalhados aos milhões pelos quatro continentes, em sua maioria não estão sequer cientes da existência desses ensinamentos e parecem, assim, estar em meio à névoa no que se refere à identidade e natureza de seu Salvador, sabendo pouco mais sobre Ele do que sabem seus amigos católicos ou protestantes, embora muitos dentre nós reivindiquem ter "toda a verdade".

A maior parte das citações aqui utilizadas a seguir são do Journal of Discourses, uma publicação oficial de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que reuniu discursos de autoridades gerais entre 1853 e 1885, em 26 volumes. Também foram utilizadas outras fontes para podermos traçar um retrato da vida familiar de Cristo, conforme as cores e tons esboçados pelos contemporâneos e sucessores de Joseph Smith.

Uma das premissas desse pensar era o fato de Cristo ter sido completamente obediente a todos os princípios que fazem parte da verdadeira religião. Como poderia Cristo omitir-se de guardar qualquer mandamento? DE acordo com Joseph Smith, no plano divino não podem haver exceções:

Onde não há mudança no sacerdócio, tampouco há mudança nas ordenanças (...) Não se podem alterar nem mudar as ordenanças que foram instituídas nos céus antes da fundação do mundo, no sacerdócio, para redimir os homens. Todos têm de ser salvos pelos mesmos princípios. (Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, p 300)

Isso levaria Cristo a umcomprometimento total com seu Pai em todos os aspectos:

Jesus Cristo nunca se omitiu do cumprimento de uma única lei que Deus tenha dado a conhecer à humanidade para a salvação dos filhos dos homens. Não seria possível para ele obedecer a uma lei e negligenciado ou rejeitado outra. Ele não poderia fazer isso e dizer à humanidade “Segue-me!”. (Joseph F. Smith, Millenial Star 62:97)

O apóstolo Orson Hyde exemplifica sua obediência perfeita falando da ordenança do batismo:

O Salvador do mundo considerava seu dever cumprir com toda a retidão? Vocês responderão que sim. Mesmo a simples ordenança do batismo ele não poderia deixar de lado, pois o Senhor a havia ordenado e, portanto, era retidão obedecer ao que o Senhor havia ordenado, e ele cumpriria com toda a retidão. Sobre esta hipótese, vou voltar ao início e notar o mandamento que foi dado aos nossos primeiros pais no Jardim do Éden: "Multiplicai e enchei a terra" (...).

(...) Nossos primeiros pais, então, foram ordenados a multiplicarem-se e encher a terra; e se o Salvador achou ser seu dever ser batizado para cumprir com toda a retidão, um mandamento de menor importância do que o de multiplicar a sua raça, (se houver de fato qualquer diferença nos mandamentos de Jeová, pois eles são todos importantes e todos essenciais), ele se acharia no dever de se juntar ao resto dos fiéis em encher a terra? (Orson Hyde, Journal of Discourses 2:79, 80, 82)

Ao falar isto em uma Conferência da Igreja, Orson Hyde acreditava estar gerando oposição e ridicularização entre o mundo cristão de sua época:

Sei que alguns jornais do leste me representam como um grande blasfemador, porque eu disse em minha dissertação sobre casamento, em nossa última conferência, que Jesus Cristo foi casado em Canaã da Galiléia, e que Maria, Marta e outras eram suas esposas e que ele teve filhos.

O que tenho a dizer em resposta a essa acusação é isto: que eles adoram um Salvador que é puro e santo demais para cumprir os mandamentos do seu Pai. Eu adoro um Salvador que é puro e santo o suficiente para “cumprir toda retidão”; não apenas a justa lei do batismo, mas a ainda mais justa e importante lei de “multiplicar e povoar a terra”. Não se maravilhe disso, pois mesmo o próprio Pai honrou esta lei vindo à Maria, sem um corpo natural, e concebeu uma criança; e se Jesus concebeu filhos, ele apenas “fez o que viu seu pai fazer. (Orson Hyde, Journal of Discourses 2:210)

O princípio do casamento para a eternidade é uma das crenças únicas do santos dos últimos dias. Embora hoje falemos na teologia sud contemporânea de “casamento celestial” e “casamento celestial plural” como coisas distintas, vemos que a doutrina sobre a eternidade do matrimônio originalmente estava relacionada totalmente à doutrina de pluralidade de esposas:

Se a doutrina do casamento plural fosse repudiada, assim deveria ser o glorioso princípio de casamento para eternidade, sendo os dois indissoluvelmente ligados. (Charles W. Penrose, Millenial Star 45:454)

Dessa forma, a construção de uma família eterna estava condicionada à construção de uma família nos antigos moldes patriarcais, uma estrutura familiar que na verdade refletia a estrutura familiar divina:

Aquela ordem patriarcal que foi estabelecida pelos céus nos primeiros períodos de existência desta Terra (...) é o padrão de relacionamento família nos céus. (John Taylor, Deseret Weekly News, 29 de novembro de 1888)


Assim como na parábola dos talentos, aquele que guardasse o único talento recebido e não o multiplicasse, poderia perdê-lo.

O que foi fiel sobre poucas coisas, será feito governante sobre muitas coisas; o que foi fiel sobre dez talentos, terá domínio sobre dez cidades, e o que foi fiel sobre cinco talentos, terá domínio sobre cinco cidades, e para cada homem será dado um reino de acordo com seus méritos, poderes e habilidades para governar e controlar. (Orson Hyde, Millenial Star, 09, 15 de janeiro de 1847, p. 23-24)

(…) como Deus havia agora ordenado o casamento plural, (...) exaltação e domínio dos santos dependiam do número de sua posteridade justa; daquele que então tivesse apenas um talento, este seria tomado e dado àquele que tinha dez (...). (Benjamin F. Johnson, carta a George Gibbs, secretário da Primeira Presidência, 1903; relatando um discurso de Joseph Smith)

Cristo, para herdar a plenitude da exaltação e dar o exemplo aos que o seguiriam, não poderia viver uma lei menor que estaria - na teologia sud a partir de Nauvoo - representada na monogamia. Como vemos nas citações abaixo, Ele foi casado pluralmente:

Lembramos que certa vez houve um casamento em Canaã da Galiléia; e com uma leitura cuidadosa do acontecimento, será descoberto que ninguém menos que Jesus Cristo se casou naquela ocasião. Se ele nunca foi casado, sua intimidade com Maria e Marta e a outra Maria a quem Jesus também amou deveria ter sido altamente inadequado e inapropriado, para dizer o melhor.

Aventuro-me a dizer que Jesus Cristo passasse hoje pelos mais pios países da cristandade com um grupo de mulheres tal como o que costumava segui-lo, dando-lhe carinho, penteando seu cabelo, o ungindo com precioso óleo, lavando seus pés com lágrimas, e os secando com seus cabelos, sem serem casadas, ou mesmo sendo casadas, ele seria linchado, coberto de piche e penas, e não andaria sobre um jumento, mas sobre um carroção. (Orson Hyde, Journal of Discourses 4:259)

À época de Cristo, embora não houvesse uma proibição por parte das autoridades religiosas judaicas, a poligamia já não era mais comum entre os israelitas e a lei romana previa a monogamia. Ao ser um poligamista, segundo os líderes sud, Jesus teria atraído sobre si a fúria das autoridades romanas e das autoridades religiosas judaicas:

A grande razão para o estouro do sentimento público em anátemas contra Cristo e seus discípulos, causando sua crucificação, foi evidentemente baseado na poligamia, de acordo com o testemunho de filósofos que viveram na época. Uma crença na doutrina da pluralidade de esposas causou a perseguição de Jesus e seus seguidores. Podemos até pensar que eles eram “mórmons”. (Jedediah Grant, Journal of Discourses 1:346)

O fato de Cristo aparecer a mulheres, ao invés de seus apóstolos, após sua ressurreição é um fato que tem movido à imaginação de muitos. De acordo com Orson Pratt, isso se deve a elas serem suas esposas:

Uma coisa é certa: havia diversas mulheres santas que amavam grandemente Jesus - Maria e Marta, sua irmã, e Maria Madalena; e Jesus as amou grandemente, e muito se associava a elas; e quando levantou dos mortos, ao invés de se mostrar primeiro à Suas testemunhas escolhidas, os apóstolos, Ele apareceu primeiro a essas mulheres, ou pelo menos a uma delas, Maria Madalena. Agora, seria muito natural para um esposo na ressurreição aparecer primeiro às suas queridas esposas, e então se mostrar a seus outros amigos. Se todos os atos de Jesus estivessem escritos, não há dúvida que saberíamos que essas mulheres amadas eram Suas esposas. (Orson Pratt, The Seer, p. 159)

Joseph Smith falou sobre estas passagens para mostrar que Maria e Marta manifestavam uma relação muito mais próxima do que simples crentes. (Wilford Woodruff, Diário, 22 de julho de 1883)

Para Brigham Young, aquilo que os gentios chamavam, nas palavras de Abraham Lincoln, de “uma relíquia do barbarismo”, era na verdade uma herança divina a ser seguida pelos portadores dignos do sacerdócio, e que havia sido recebida e obedecida por todos os grandes homens da história sagrada, incluindo o próprio Jesus. Na citação abaixo, Brigham aponta para a contradição das lojas maçônicas que proibiam a participação de santos dos últimos dias, devido à poligamia:

Há uma outra classe dos indivíduos a quem eu referirei brevemente. Devemos chamá-los de cristãos? Eram cristãos originalmente. Nós não podemos ser admitidos em suas sociedades, em seus lugares de reunião em certos momentos e em determinadas ocasiões, porque estão receosos da poligamia. Eu vou lhes dar seu título para que vocês possam saber de quem eu estou falando: refiro-me aos franco-maçons. Eles recusaram a filiação de nossos irmãos em suas lojas porque eram poligamistas. Quem foi o fundador da franco-maçonaria? Eles podem ir até Salomão, e param lá. Há o rei que estabeleceu esta elevada e sagrada ordem. Agora, ele era um poligamista ou não era? Se ele acreditava em monogamia, ele não a praticou muito, porque teve setecentas esposas, e isso é mais do que eu tenho; e teve trezentas concubinas, e eu não tenho nenhuma que eu saiba. No entanto, a fraternidade [maçônica] inteira em todo o mundo gritará contra esta ordem [do casamento plural] "Oh, meus caros, oh...", gritão eles, "Sinto dor, sofro ao testemunhar a iniqüidade que há na terra. Aqui há uma das ‘relíquia do barbarismo’ [o casamento plural]". Sim, uma das relíquias de Adão, de Enoque, de Noé, de Abraão, de Isaque, de Jacó, de Moisés, Davi, Salomão, dos Profetas, e de Jesus e seus Apóstolos. (Brigham Young, 10 de fevereiro de 1867, Deseret News, Journal of Discourses)

Os ensinamentos esboçados neste artigo mostram claramente a preocupação dos líderes da restauração em instruir seu povo com um conhecimento mais pessoal e detalhado do Salvador, apresentando-o como um homem perfeito que obedeceu a todos os mandamentos.

No conhecimento há poder. (...) O princípio do conhecimento é o princípio da salvação. (...) O poder da salvação é o conhecimento. (Ensinamentos do Profeta Joseph Smith, p. 280, 288, 298)

Diferentemente daqueles que atualmente buscam as evidências de seu matrimônio e descendência como “provas” contrárias à sua origem divina, as citações d elíderes do passado mórmon nos levam por um percurso completamente oposto: ao retrarem Jesus Cristo como um esposo e pai, os deuses ganham raízes e ramos, com pais e mães, filhos e filhas, numa sucessão ininterrupta de gerações. Cristo não foi uma exceção à regra, fez o que seu Pai havia antes feito.

Se um homem recebe a plenitude do sacerdócio de Deus, deve obtê-la da mesma forma que Jesus Cristo a alcançou, isto é: guardando todos os mandamentos e obedecendo a todas as ordenanças da casa do Senhor. (Ensinamento do Profeta Joseph Smith, p. 300)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A lei da adoção - parte 1


Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, em mim, e eu em ti, que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.

João 17:21



Introdução

Foi na cidade de Nauvoo, durante a década de 1840, que as ordenanças do templo atingiram uma maior elaboração, juntamente com as doutrinas que expressavam, incluindo os primeiros selamentos e a totalidade da investidura. Num distanciamento cada vez maior do cristianismo tradicional, a estrutura apostólica da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias via florescer uma estrutura patriarcal, com novos ensinamentos que incluíam a progressão eterna do ser humano, a origem de Deus como um homem mortal, a pluralidade de deuses ao longo das eternidades e a possibilidade do estabelecimento de unidades familiares que sobreviveriam à morte.

Joseph Smith pretendia estabelecer uma sociedade baseada em princípios divinos que englobassem cada aspecto da vida humana: no plano econômico, a lei da consagração e a Ordem Unida; no plano político, o estabelecimento do Conselho dos Cinqüenta; e no plano social, o estabelecimento de uma unidade familiar de grandes proporções, pelos princípios do casamento celestial (plural) e da lei da adoção. A adoção, como princípio doutrinário e ordenança do templo, talvez seja um dos aspectos menos conhecidos dos membros da Igreja sud contemporânea. para a implementação completa desses princípios, Joseph Smith estabeleceu outras estruturas, independentes da Igreja sud: o Quórum dos Ungidos e o Conselho dos 50. Antes da lei da adoção estar disponível para a maioria dos membros, ela foi introduzida ao grupo formado por cerca de trinta pessoas em Nauvoo, o Quórum dos Ungidos, também conhecido como Ordem Sagrada, para quem o profeta administrou as primeiras versões da investidura e dos círculos de oração.

Até 1894, os santos dos últimos dias foram ensinados sobre a lei da adoção, de acordo com a qual dois homens podiam ser selados como pai e filho dentro do novo e eterno convênio. Os selamentos entre as gerações, unindo pais e filhos, não deveriam necessariamente seguir a ordem genealógica ou biológica de uma família. Os santos poderiam ser unidos em uma única e grande família, tendo Joseph Smith como seu elo comum. A lei da adoção influenciava a vida familiar daqueles que a viviam em aspectos práticos e expressava a natureza fortemente patriarcal com que a liderança mórmon então começava a conceber o evangelho. Além disso, dava à doutrina de redenção dos mortos uma natureza distinta da que esta possui hoje em dia na Igreja sud.

Nesta primeira parte do artigo, tentarei mostrar o fundamento doutrinário da lei da adoção, algumas evidências de sua prática e a importância que teve na história mórmon. A adoção dos antepassados como posteridade dentro da obra vicária e a interrupção da prática durante a presidência de Wilford Woodruff serão analisadas na segunda parte.


Reino Familiar

Ao lado do casamento celestial plural, a lei da adoção era um princípio fundamental na visão de Joseph Smith para a construção do Reino de Deus sobre a terra. Este foi um ensinamento que Joseph transmitiu aos seus amigos mais próximos durante seus últimos anos de vida. Segunda Juanita Brooks,

A “Lei da Adoção” surgiu do conceito de “reinos, principados e poderes” nos “Mundos Celestiais”. Joseph Smith teve selados a si alguns de seus mais fiéis seguidores, entre eles os primeiros membros do Conselho dos Cinqüenta, para ajudar a estabelecer o Reino de Deus sobre esta terra e partilhar de sua exaltação no porvir. (On the Mormon frontier, the diary of Hosea Stout. University of Utah Press, 1964, p. 178, n. 50; tradução nossa)[1]


No momento em que um homem não tivesse um pai digno portando o sacerdócio, ele poderia ser selado a outro, sendo que todos os selamentos nesta dispensação deveriam eventualmente ligar cada família numa única, tendo Joseph Smith como um patriarca comum e, através dele, ligar cada indivíduo ao Pai da raça humana, Adão.
A lei da adoção, entre outros elementos, prepararia os alicerces de um governo patriarcal e teocrático sobre a terra, o qual constituiria o próprio Reino de Deus profetizado nas escrituras e do qual Joseph se considerava um dos construtores:


Acredito ser um dos agentes no estabelecimento do reino visto por Daniel, através da palavra do Senhor, e é minha intenção estabelecer um alicerce que revolucionará o mundo inteiro. (Ensinamentos do profeta Joseph Smith, p.357)


Note-se que a Igreja de Jesus Cristo havia sido organizada em 1830, mas na citação acima, em maio de 1844, Joseph Smith fala do estabelecimento do Reino de Deus utilizando uma perspectiva futura. Joseph referia-se a uma organização distinta, para a qual era necessário restaurar os antigos princípios patriarcais. O Reino de Deus, para Joseph, não teria apenas um domínio eclesiástico, mas também social e político.

B. H. Roberts, historiador da Igreja, fala da distinção entre a Igreja e o Reino:


(...) é adequado ao leitor saber que Joseph Smith, quando falando estritamente, reconhecia uma distinção entre “A Igreja de Jesus Cristo” e o “Reino de Deus”. E não apenas uma distinção mas uma separação entre elas. (...) e [Joseph] efetuou a organização de um núcleo do Reino acima referido (...) (The Rise and Fall of Nauvoo, p. 180, 181)

Brigham Young explica que a base familiar para restaurar o governo do sacerdócio - no tempo e na eternidade - poderia ser estabelecido de duas maneiras:


Há dois grandes princípios pelos quais todos os seres inteligentes têm um direito legítimo para governar e possuir domínio; estes são por gerar filhos de seus próprios lombos e por ganhar os corações de outros que voluntariamente desejam seu exercício justo de domínio estendido sobre eles. (Brigham Young, Millenial Star 15:801-804, ênfase nossa)


Além da geração natural, biológica, de filhos dentro do convênio, o princípio da adoção também poderia trazer a um homem uma posteridade eterna, com homens dispostos a ingressarem em sua família como filhos.

Em 1873, Thomas B. H. Stenhouse explicava a lei da adoção nos seguintes termos:


Esta lei da adoção pressupunha que Joseph Smith havia sido escolhido e ordenado antes da criação do mundo para ser o cabeça e governante da “Última Dispensação”. Adão, Noé, Abraão, Moisés, Elias e Jesus tiveram cada um seu lugar na história do mundo como grandes homens a quem dispensações especiais haviam sido conferidas; mas a Joseph foi dada a “Dispensação da plenitude dos tempos”, a qual, ao harmonizar a obra dos profetas e apóstolos de todas as eras, deveria ser o coroamento da obra dos céus acima e da terra abaixo.

A declaração “nenhum homem vem ao pai senão por mim” era aplicada pelos apóstolos modernos a Joseph Smith, e agora a Brigham Young, e se ele tivesse mil sucessores seria igualmente aplicável a todos eles. (...)

Os apóstolos encontraram-se com os quóruns do sacerdócio e os ensinaram-lhes que “o reino” havia sido dado a Joseph, e que era necessário, para obter a salvação, que todos os santos fossem selados uns aos outros e finalmente a ele. (The Rocky Mountain Saints, p. 495-506)


Em seu relato, Stenhouse enfatiza o papel dos apóstolos na lei de adoção. Provavelmente, ele reflete o entendimento que muitos membros das Igreja tiveram da lei da adoção, quando o status passou a ser um critério importante. A adoção, no entanto, não dependia do ofício ocupado na Igreja sud e, como veremos na segunda parte, todo aquele que realizasse a salvação de seus antepassados mortos tinha que adotá-los como posteridades.
Para Joseph, sem ser selado a um pai, um homem colocaria em risco sua possibilidade de exaltação, uma vez que a única estrutura existente no mais alto grau do reino celestial seria familiar. Na mortalidade e na eternidade, esse pai – natural ou adotivo – seria seu superior na hierarquia do sacerdócio, a quem o filho deveria honrar eternamente.
Foi provavelmente com tal noção em mente que o apóstolo Orson Hyde representou graficamente o Reino à semelhança de uma árvore genealógica (ver imagem acima).

O diagrama acima mostra a ordem e a unidade do reino de Deus. O Pai eterno senta-se à cabeça, coroado Rei dos reis e Senhor dos senhores. Onde quer que as outras linhas se encontrem, senta-se um rei e sacerdote para Deus (...). Ele é um com o Pai, pois seu reino é somado ao de seu Pai (...). Tais reinos, que são um reino, são destinados a estender-se até não somente compreender este mundo, mas cada outro planeta que gira no firmamento azul do céu. (A Diagram of the Kingdom of God, Millenial Star, 09, 15 de janeiro de 1847, p. 23-24)


A exaltação, portanto, requeria a inclusão do indivíduo nesse reino familiar, para que fosse considerado um “herdeiro legal”. De outra forma, a jornada rumo ao mais alto céu do reino celestial não seria completa:

Uma coisa é ver o reino de Deus e outra é entrar nele. Devemos ter uma mudança de coração para ver o reino de Deus e aceitar as regras de adoção para entrar nele. (Joseph Smith, History of the Church 6:58; Teachings of the prophet Joseph Smith, p. 328; ênfase nossa.)


E para que isto acontecesse, como o cabeça da sétima dispensação, Joseph Smith seria o elo entre o próprio Deus e Seus filhos nesta terra, ligando dessa forma os dois lados do véu em uma única organização familiar.

Como em qualquer outra ordenança, o princípio de revelação é o que deveria governar a escolha, para saber onde o indivíduo deveria ser “enxertado” nessa grande árvore. Brigham Young, por exemplo, foi selado ao seu pai natural, e este último a Joseph Smith. Já John Taylor, apesar de seu pai natural ser um portador do sacerdócio, fala de Parley P. Pratt como seu “pai no evangelho” . [2]




NOTAS

[1] O Conselho dos Cinqüenta era uma organização cuja existência não era de conhecimento dos membros em geral, formado por esse número aproximado de homens, tendo Joseph Smith à sua frente como Profeta, Rei e Sacerdote. Designado por revelação como “O Reino de Deus e Suas Leis com suas chaves e poder e julgamento nas mãos de Seus servos, Ahman Cristo”, foi a organização que esteve à frente da campanha de Joseph à presidência dos Estados Unidos e do êxodo para as Montanhas Rochosas, agindo de forma independente do Quórum dos Doze e da Igreja sud como um todo durante os últimos anos de Joseph.

[2] Nauvoo Diary of John Taylor, BYU Studies Vol. 23, no. 3, p. 86.