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sexta-feira, 30 de julho de 2010

A lei da adoção - parte 2



Para Joseph Smith, a exaltação no reino celestial dependia da obediência a todos os mandamentos e o recebimento de todas as ordenanças do evangelho. Conforme tentei esboçar na primeira parte deste artigo, entre tais mandamentos e ordenanças estava a inclusão do indivíduo numa família, a qual seria formada pelos vínculos do matrimônio (homem e mulher) e da adoção (homem a homem). Esses dois tipos de selamento, em suma, deveriam ligar os santos mais fiéis em uma única família, a família de Deus, tendo Joseph Smith como um elo entre a divindade e os santos, estabelecendo na mortalidade a única estrutura que existiria na eternidade. Orson Pratt lembra o seguinte fato sobre a organização familiar futura:

Quem serão os súditos sobre os quais reinarão aqueles que forem exaltados no Reino Celestial de nosso Deus? Eles reinarão sobre os filhos do próximo? Oh, não. Sobre quem então irão reinar? Seus próprios filhos, sua própria posteridade serão os cidadãos de seus reinos; em outras palavras, a ordem patriarcal prevalecerá até as infinitas eras da eternidade, e os filhos de cada patriarca serão seus enquanto as eternidades passam. (Journal of Discourses 15:319-320)


Pelo selamento da adoção, um homem adulto era inserido na família de outro homem adulto, estabelecendo entre eles uma relação de pai e filho que deveria se prolongar pelas eternidades. Introduzida aparentemente em 1842 a um grupo chamado Quórum dos Ungidos, a lei da adoção ainda marcaria a experiência mórmon de modo mais explícito.[1]


O êxodo para o oeste e a lei da adoção

Foi essa organização familiar, construída através dos convênios da lei de adoção e do casamento patriarcal, que esteve à frente do êxodo de Nauvoo para as Montanhas Rochosas, através das companhias que conduziram a Igreja de Jesus Cristo para o futuro território de Deseret, hoje Utah. Não foi gratuitamente que a organização do êxodo foi chamada em uma revelação de "Acampamento de Israel" (D&C 136:1). "Israel" não evocava uma estrutura apostólica, mas uma organização patriarcal, familiar, tribal, a qual os pioneiros queriam restaurar. [2]

Os dois relatos abaixo, de John D. Lee e Wilford Woodruff respectivamente, mostram como os grupos que deixariam Nauvoo rumo ao oeste foram organizados por critérios familiares, em que a lei da adoção estava presente:

No inverno de 1845, reuniões foram realizadas em toda a cidade de Nauvoo, e o espírito de Elias foi ensinado nas diferentes famílias como o fundamento para a ordem do casamento celestial, bem como a lei da adoção. (Life of John D. Lee, p.165)

Eu, Wilford Woodruff, organizei minha companhia familiar esta noite na minha casa, consistindo de 40 homens, a maioria chefes de família. Aqueles que se uniram a mim entraram em um convênio com mãos levantadas ao céu de manter todos os mandamentos e estatutos do Senhor nosso Deus e me apoiar em meu ofício.

Este foi um dia importante na História da Igreja em um aspecto. O Presidente Brigham Young reuniu-se com sua companhia ou organização familiar ou aqueles que foram adotados a ele ou iriam ser e os organizou em uma companhia da qual poderá crescer um povo que pode ser chamado de a tribo de Brigham Young. (...) E eles entraram em um convênio com mãos levantadas ao Céu com o Presidente Young e uns com os outros para caminhar em todas as ordenanças e mandamentos do Senhor nosso Deus. (Wilford Woodruff’s Journal, Vol. 3, p.119) [3]


A lei da adoção e o casamento plural que haviam sido introduzidos pelo profeta aos membros do Quórum dos Ungidos e do Conselho dos 50, agora eram praticados de maneira mais aberta após o assassinato de Joseph e Hyrum Smith., dando uma nova colaração à igreja que buscava uma terra de refúgio no oeste do continente. Esses dois princípios seriam publicamente enfatizados e institucionalizados durante a liderança de Brigham Young em Winter Quarters ("Acampamentpo de Inverno") e depois no oeste. É em Winter Quarters que Brigham Young relata ter uma visão em que Joseph Smith lhe aparece e o instrui sobre os princípios de adoção. [4] Como observado por Gordon Irving,

(…) enquanto o selamento era uma doutrina aceita em 1844, os santos em geral tiveram pouca oportunidade de se familiarizarem em termos práticos com a doutrina do selamento antes da morte de Joseph Smith. ( Gordon Irving. The Law of Adoption: One Phase of the Development of the Mormon Concept of Salvation, 1830-1900. BYU Studies, n. 3, Spring 1974)


Uma vez que os selamentos não estavam reservados apenas aos vivos, devendo incluir os que estavam do outro lado do véu, além de buscar um pai digno que estivesse na linhagem do sacerdócio, um homem deveria ser também um elo para que seus próprios antepassados já falecidos pudessem entrar na família. Os antepassados – homens e mulheres - deveriam ser por salvos através do batismo e demais ordenanças realizadas no templo e então adotados como posteridade.

Aquele que na vida mortal realizava a ordenança salvava aquele que a recebia no mundo pós-mortal, tendo por isso que presidir sobre quem salvasse. Joseph Smith se referiu ao conceito de ser um salvador e presidir futuramente sobre aqueles para quem o trabalho do templo é realizado:

Use de um pouco de inteligência e sele todos os que puder e quando chegar ao céu diga a seu pai que o que você sela na terra será selado no céu. Eu passarei o portão do céu e reivindicarei o que eu selo e os que seguem a mim e a meu conselho. (Teachings of the prophet Joseph Smith, p. 340)


Este é talvez um dos sentidos com que Brigham Young referiu-se a Joseph Smith como um deus - tendo sido um elo entre o homem e a divindade para que seus seguidores fossem adotados à família de deus e salvassem seus ancestrais, Joseph se tornara um salvador ou deus para seu povo:

Se vocês descobrirem quem Joseph era, saberão tanto sobre Deus quanto precisam no presente; pois ele disse: "Eu sou um Deus para este povo". (Journal of Discourses 4:271) [5]



"Nossos mortos"

Através da lei da adoção, era dado aos santos o privilégio de tornarem salvadores de seus próprios antepassados. A afirmação de que "eles, sem nós, não podem ser aperfeiçoados – nem podemos nós, sem nossos mortos, ser aperfeiçoados" [3], recebia uma interpretação diferente da que tem hoje na atual teologia sud: os antepassados precisavam de um salvador que recebesse as ordenanças a seu favor e que se tornaria um elo para adentrarem a família ou reino de Deus. Estes antepassados redimidos pelas ordenanças do evangelho (caso as aceitassem) seriam então parte da posteridade daqueles que trabalharam por sua salvação.

Sobre o trabalho pelos mortos, ele [Joseph Smith] disse que na ressurreição aqueles por quem se havia trabalhado cairiam aos pés dos que haviam realizado o trabalho por eles, beijariam seus pés, abraçariam seus joelhos e manifestariam a mais grandiosa gratidão. Não entendemos que bênção essas ordenanças são para eles. (Horace Cummings, citado por N.B. Lundwall, The Vision, p. 141)


Até 1894, o trabalho de redenção dos ancestrais já mortos, ao contrário do que é realizado atualmente nos templos da Igreja sud, requeria que estes fossem adotados como posteridade daquele que realizava tal trabalho, o qual se tornava um salvador no Monte Sião:

(...) se eu tiver um pai falecido que nunca ouviu este evangelho, seria de mim requerido redimi-lo e então tê-lo adotado na família de algum homem e eu adotado a meu pai? Respondo que não. Se temos que realizar as ordenanças de redenção para nossos familiares mortos, então nos tornamos seus Salvadores; e se tivéssemos que esperar para redimir nossos parentes falecidos antes de poder nos ligar à corrente do Sacerdócio, nunca conseguiríamos. (Manuscript sermons of Brigham Young, 1:76)


O selamento entre as gerações, entre mortos e vivos, não precisava reproduzir a sequência de nascimentos; ao contrário, os antepassados se tornavam filhos e filhas, a posteridade daquele que os redimia através da obra vicária no templo. A adoção, portanto, tinha um duplo aspecto: o homem era ligado à família real de Deus e Seu Filho, através de Joseph Smith, sendo selado a ele ou a outro homem que já estive selado à sua família, qualificando-se, então, para servir como um elo nessa corrente para seus próprios ancestrais, os quais eram adotados a ele.


Adoção dos ancestrais interrompida

Muitos santos dos últimos dias não estavam contentes com a lei da adoção e a maneira como influenciava a obra de salvação dos seus mortos. No final do séc. XIX, antes de interromper completamente a adoção de ancestrais falecidos como posteridade dos membros vivos, a Igreja já havia deixado aos presidentes de templo a decisão sobre como instruir os membros nessa questão, de forma que muitos santos já estavam sendo selados a seus pais biológicos falecidos, mesmo quando estes não haviam sido membros durante a vida mortal. O descontentamento com a lei da adoção era partilhado por parte das autoridades gerais, incluindo Wilford Woodruff, terceiro presidente da Igreja.

A lei da adoção que havia nascido ao lado do casamento celestial plural, tinha agora seu fim logo após o Manifesto de 1890. Em 1894, Woodruff, decidiu que a ordem de selamentos dos ancestrais deveria ser revertida, seguindo a ordem natural e cronológica da árvore familiar. Assim como no caso do Manifesto, não houve o registro de uma revelação que corroborasse a decisão tomada, embora houvesse, em ambos os casos, a alusão a revelações divinas.

A decisão de Wilford Woodruff deixou, à época, as ordenanças vicárias mais semelhantes ao que é realizado hoje nos templos sud. A nova diretriz foi proclamada por Woodruff na conferência de abril de 1894:

(...) o dever que quero que todo homem que preside um templo veja realizado deste dia em diante e para sempre, a não ser que o Senhor Todo Poderoso ordene em contrário, é que todo homem seja adotado a seu próprio pai. (...)


No entanto, apesar de interromper a prática dos membros serem adotados a um outro membro vivo, Wilford Woodruff ensinou que o princípio de adoção a cabeça da dispensação deveria ser mantido, selando o último ancestral encontrado na história da família a Joseph Smith:

Queremos que todos os santos dos últimos dias tracem suas genealogias até onde puderem e sejam selados a seus pais e mães. (...) Quando chegar ao fim, deixe o último homem ser selado a Joseph Smith, que permanece à cabeça desta dispensação. (James R. Clarck (org.), Messages of the first Presidency, 3:256; ênfase nossa)


Também os critérios de dignidade não poderiam ser postos de lado, de acordo com a nova diretriz. Woodruff, na mesma mensagem, fala do caso de homicidas que porventura alguém pudesse encontrar na sua genealogia:

"Mas," alguém diz, "suponha que cheguemos a um homem que talvez seja um assassino". Bem, se ele é um assassino, deixe-o de lado e conecte-se com o próximo homem depois dele. Mas o Espírito de Deus estará conosco nesta matéria. (ibidem)


Nesses dois últimos pontos, temos uma diferença em relação à atual obra vicária sud, uma vez que a adoção a Joseph Smith ou outra pessoa fora da linhagem familiar é impossível e nenhum critério de dignidade pessoal é mais aplicado aos mortos. [66] Infelizmente, ainda não pude determinar quando a prática de adoção a Joseph Smith foi totalmente abandonada. [7]

Sob a presidência de Wilford Woodruff, entre 1889 e 1898, a Igreja viveu um período de profundas mudanças que alterariam para sempre a igreja estabelecida por Joseph Smith. Sob a pressão do governo norte-americano, a Igreja se viu no limite da existência tanto legal quanto física, onde os aspectos econômico, político e social de Sião foram atacados diretamente, de forma que abdicar da Ordem Unida, do governo teocrático e do casamento plural foi o preço pago pela americanização de Utah. [8]

Diferentemente do casamento plural, a lei da adoção era bem menos conhecida do público norte-americano e, com certeza, bem menos chocante. No entanto, as palavras de Woodruff parecem sugerir um elo entre a adoção e um passado recente que a Igreja tentava abandonar. Falando sobre as distorções que a lei da adoção havia sofrido desde o início, o presidente Woodruff faz referência a John D. Lee, o único membro da Igreja penalizado pelo massacre de Mountain Meadows, ocorrido em 1857:

(...) um homem saia por Nauvoo pedindo a todo homem que pudesse, "se você for adotado a mim, eu vou estar à cabeça do reino e você estará lá comigo". Agora, qual a verdade sobre isso? Aqueles que foram adotados aquele homem, se forem com ele, terão que ir aonde ele está. Ele foi um participante naquele terrível episódio – o massacre de Mountain Meadow [sic]. (idem)


A seguir, Woodruff passa a defender Brigham Young, afirmando que este não teve envolvimento algum nos episódios de 11 de setembro de 1857. Chama a atenção o fato do nome de Lee não ser pronunciado por Woodruff; tampouco é mencionada sua condição como filho adotivo de Brigham Young - o fato referido é que outros homens haviam sido adotados a Lee. [9] Tendo relembrado John D. Lee - executado 17 anos antes - como um exemplo do potencial perigo a que se submeteram os que se selaram a ele, o presidente Woodruff diz que

Homens estão a perigo às vezes ao serem adotados a outros, até saberem quem eles são e o que farão. [10]



O fim de uma era

Enquanto o Manifesto de 1890 não findou totalmente a prática do casamento plural na Igreja sud, colocando-a de volta à esfera não-pública, como nos dias de Nauvoo, a mudança na ordem de selamentos dos mortos e o fim do selamento de um homem vivo a outro não encontraram uma resistência semelhante que fizesse com que a lei original da adoção sobrevivesse tal como os selamentos plurais após 1890. As distorções do princípio de adoção e a conseqüente disputa de status entre membros, as dúvidas doutrinárias sobre o princípio, a impopularidade do mesmo entre membros em geral e algumas das autoridades gerais, entre outros fatores, formaram um contexto propício para que a adoção iniciada em Nauvoo fosse abandonada durante a era de conciliação com a sociedade americana que Wilford Wodruff estabeleceu.

Tendo sido um dos princípios pelo qual o êxodo para o oeste fora organizado, a lei da adoção estava também relacionada à tentativa de sair dos EUA e estabelecer uma nova nação independente para os santos dos últimos dias. Em seu discurso de conferência, a alusão ao episódio de Mountain Meadows e o nome não pronunciado de John D. Lee podem sugerir essa forte associação concebida por Wilford Woodruff entre a adoção e o passado recente da Igreja. Woodruff sentia a necessidade de colocar a Igreja numa situação segura, longe dos atritos com os EUA, suas turbas e governo, que ele e seu povo haviam vivido por tanto tempo. Havia também uma nova geração de membros da Igreja que desejavam a americanização do território e, talvez, uma Igreja menos exclusivista e menos presentes nos aspectos familiares. Afinal, Utah era um novo estado americano e deveria estar em paz com o povo americano, abraçando também parte de sua moral e costumes.

Do ponto-de-vista da história mórmon, a lei da adoção se revela um tópico ainda pouco explorado, parte em função da pouca documentação disponível sobre seus primórdios e seu ocaso. Mas permanece como uma forte expressão da ênfase patriarcal e familiar deixada por Joseph Smith durante seus últimos anos de vida. Com o fim da Ordem Unida, do casamento plural e da adoção, bem como o abandono de pretensões teocráticas, o aspecto apostólico acabou por sobrepujar o aspecto patriarcal na teologia sud, fazendo com que a Igreja hoje pregue e pratique apenas uma parte do mormonismo desenvolvido em Nauvoo.


* A foto que ilustra este artigo é do templo de St George, o primeiro templo construído em Utah, dedicado em 06 de abril de 1877.


NOTAS

1 Não há registro conhecido de uma revelação escrita sobre a lei da adoção, tampouco quando os primeiros selamentos desse tipo foram realizados pela primeira vez. A maioria dos historiadores concorda, no entanto, com o ano de 1842 como o início da prática. A instituição da prática em 1842 seguiu o início dos selamentos de mulheres a seu esposo, em 1841 (sendo o primeiro selamento registrado o de Louisa Beaman ao profeta Joseph Smith em abril daquele ano), e a administração da investidura (em maio de 1842).

2 Durante o despertar religioso nos EUA do século XIX, não eram poucos os grupos que buscavam um retorno à pureza da igreja cristã primitiva; porém, o primitivismo mórmon buscava muito além da igreja neo-testamentária, indo até o passado israelita e os patriarcas de tempos imemoriais.

Enquanto a autoridade necessária para a restauração da ordem apostólica havia sido recebida de três personagens do Novo Testamento – Pedro, Tiago e João - em junho de 1830 (D&C 27:12; 128:20), chaves pertencentes à ordem patriarcal foram outorgadas, em abril de 1836, por outros três personagens relacionados ao Velho Testamento - Moisés e Elias, o profeta (em inglês, “Elijah”) e um terceiro mensageiro (também chamado de “Elias” na tradução brasileira de Doutrina e Convênios; em inglês, “Elias”) representando a autoridade de Abraão (D&C 110). (Ainda que a identidade de Elias não seja claramente estabelecida, baseado em uma possível relação com D&C 27:6-7, é especulado que esse Elias possa ser Noé.) Mereceria mais atenção a relação entre a restauração dessas chaves a Joseph Smith e Oliver Cowdery no templo de Kirtland e o estabelecimento das ordenanças em Nauvoo.

3 Comparar com a revelação em Doutrina e Convênios 136:4.

4 Manuscript history of Brigham Young, Feb. 23, 1847; Fred Collier. Unpublished revelations, p. 106-107.

5 Talvez Joseph tivesse em mente um paralelo entre si e Moisés na passagem de Êxodo 4:16, quando o Senhor fala a Moisés: "E ele [Aarão] falará por ti ao povo; e acontecerá que ele te será por boca , e tu lhe serás por Deus". Para Joseph, ambos – Moisés e ele próprio – eram não penas profetas que falavam em nome de Deus mas cabeças de dispensação, o que lhes dava uma dimensão ainda maior no plano divino.

6 Atualmente, na Igreja sud, embora o batismo de um homicida não seja permitido em vida sem a aprovação da Primeira Presidência, o mesmo não se aplica às ordenanças vicárias. Mesmo que um membro se depare com o nome de um antepassado que tenha cometido homicídio, não há orientação para que o batismo no templo não seja realizado ou o indivíduo em questão não seja incluído nos selamentos entre as gerações da família.

7 A publicação História da igreja na plenitude dos tempos, usada como manual de estudo do Instituto de Religião, dá a entender que o princípio de adoção foi totalmente abandonado a partir de 1894, sem citar o fato de que a adoção de um membro da família a Joseph Smith fazia parte da nova política (p. 446-447). Tampouco Gordon Irving discute o fato em seu artigo The Law of Adoption: One Phase of the Development of the Mormon Concept of Salvation, 1830-1900, publicado no periódico BYU Studies em 1974.

8 Para o sentimento dos santos dos últimos dias sobre os EUA antes do estabelecimento de Utah, ver o artigo A viagem do navio Brooklyn, de Kent Larsen.

9 Em abril de 1961, a Primeira Presidência e o Quórum dos Doze se reuniram para discutir o status de membro de John D. Lee, executado por um pelotão de fuzilamento em 1877 por causa de seu envolvimento no massacre ocorrido 20 anos antes. Foi decidido que Lee deveria ter sua condição de membro e suas bênçãos restauradas. As ordenanças foram então realizadas no mês seguinte no templo de Salt Lake. Juanita Brooks. The Mountain Meadows massacre, p. 223; David L. Bigler. Forgotten kingdom: the Mormon theocracy in the American West (1847-1896), p. 179.

10 Apesar de sugerir que o selamento (ou adoção) aos próprios ancestrais mortos seja mais seguro, o presidente Woodruff aqui não aplica aos mortos o mesmo raciocínio sobre "ir aonde eles estiverem", desconsiderando o fato de que sua trajetória mortal é em muitos casos desconhecida dos seus descendentes. Tampouco ele desenvolve o tema da validade ou não do selamento, ou sua dependência da integridade dos indivíduos envolvidos.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A lei da adoção - parte 1


Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, em mim, e eu em ti, que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.

João 17:21



Introdução

Foi na cidade de Nauvoo, durante a década de 1840, que as ordenanças do templo atingiram uma maior elaboração, juntamente com as doutrinas que expressavam, incluindo os primeiros selamentos e a totalidade da investidura. Num distanciamento cada vez maior do cristianismo tradicional, a estrutura apostólica da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias via florescer uma estrutura patriarcal, com novos ensinamentos que incluíam a progressão eterna do ser humano, a origem de Deus como um homem mortal, a pluralidade de deuses ao longo das eternidades e a possibilidade do estabelecimento de unidades familiares que sobreviveriam à morte.

Joseph Smith pretendia estabelecer uma sociedade baseada em princípios divinos que englobassem cada aspecto da vida humana: no plano econômico, a lei da consagração e a Ordem Unida; no plano político, o estabelecimento do Conselho dos Cinqüenta; e no plano social, o estabelecimento de uma unidade familiar de grandes proporções, pelos princípios do casamento celestial (plural) e da lei da adoção. A adoção, como princípio doutrinário e ordenança do templo, talvez seja um dos aspectos menos conhecidos dos membros da Igreja sud contemporânea. para a implementação completa desses princípios, Joseph Smith estabeleceu outras estruturas, independentes da Igreja sud: o Quórum dos Ungidos e o Conselho dos 50. Antes da lei da adoção estar disponível para a maioria dos membros, ela foi introduzida ao grupo formado por cerca de trinta pessoas em Nauvoo, o Quórum dos Ungidos, também conhecido como Ordem Sagrada, para quem o profeta administrou as primeiras versões da investidura e dos círculos de oração.

Até 1894, os santos dos últimos dias foram ensinados sobre a lei da adoção, de acordo com a qual dois homens podiam ser selados como pai e filho dentro do novo e eterno convênio. Os selamentos entre as gerações, unindo pais e filhos, não deveriam necessariamente seguir a ordem genealógica ou biológica de uma família. Os santos poderiam ser unidos em uma única e grande família, tendo Joseph Smith como seu elo comum. A lei da adoção influenciava a vida familiar daqueles que a viviam em aspectos práticos e expressava a natureza fortemente patriarcal com que a liderança mórmon então começava a conceber o evangelho. Além disso, dava à doutrina de redenção dos mortos uma natureza distinta da que esta possui hoje em dia na Igreja sud.

Nesta primeira parte do artigo, tentarei mostrar o fundamento doutrinário da lei da adoção, algumas evidências de sua prática e a importância que teve na história mórmon. A adoção dos antepassados como posteridade dentro da obra vicária e a interrupção da prática durante a presidência de Wilford Woodruff serão analisadas na segunda parte.


Reino Familiar

Ao lado do casamento celestial plural, a lei da adoção era um princípio fundamental na visão de Joseph Smith para a construção do Reino de Deus sobre a terra. Este foi um ensinamento que Joseph transmitiu aos seus amigos mais próximos durante seus últimos anos de vida. Segunda Juanita Brooks,

A “Lei da Adoção” surgiu do conceito de “reinos, principados e poderes” nos “Mundos Celestiais”. Joseph Smith teve selados a si alguns de seus mais fiéis seguidores, entre eles os primeiros membros do Conselho dos Cinqüenta, para ajudar a estabelecer o Reino de Deus sobre esta terra e partilhar de sua exaltação no porvir. (On the Mormon frontier, the diary of Hosea Stout. University of Utah Press, 1964, p. 178, n. 50; tradução nossa)[1]


No momento em que um homem não tivesse um pai digno portando o sacerdócio, ele poderia ser selado a outro, sendo que todos os selamentos nesta dispensação deveriam eventualmente ligar cada família numa única, tendo Joseph Smith como um patriarca comum e, através dele, ligar cada indivíduo ao Pai da raça humana, Adão.
A lei da adoção, entre outros elementos, prepararia os alicerces de um governo patriarcal e teocrático sobre a terra, o qual constituiria o próprio Reino de Deus profetizado nas escrituras e do qual Joseph se considerava um dos construtores:


Acredito ser um dos agentes no estabelecimento do reino visto por Daniel, através da palavra do Senhor, e é minha intenção estabelecer um alicerce que revolucionará o mundo inteiro. (Ensinamentos do profeta Joseph Smith, p.357)


Note-se que a Igreja de Jesus Cristo havia sido organizada em 1830, mas na citação acima, em maio de 1844, Joseph Smith fala do estabelecimento do Reino de Deus utilizando uma perspectiva futura. Joseph referia-se a uma organização distinta, para a qual era necessário restaurar os antigos princípios patriarcais. O Reino de Deus, para Joseph, não teria apenas um domínio eclesiástico, mas também social e político.

B. H. Roberts, historiador da Igreja, fala da distinção entre a Igreja e o Reino:


(...) é adequado ao leitor saber que Joseph Smith, quando falando estritamente, reconhecia uma distinção entre “A Igreja de Jesus Cristo” e o “Reino de Deus”. E não apenas uma distinção mas uma separação entre elas. (...) e [Joseph] efetuou a organização de um núcleo do Reino acima referido (...) (The Rise and Fall of Nauvoo, p. 180, 181)

Brigham Young explica que a base familiar para restaurar o governo do sacerdócio - no tempo e na eternidade - poderia ser estabelecido de duas maneiras:


Há dois grandes princípios pelos quais todos os seres inteligentes têm um direito legítimo para governar e possuir domínio; estes são por gerar filhos de seus próprios lombos e por ganhar os corações de outros que voluntariamente desejam seu exercício justo de domínio estendido sobre eles. (Brigham Young, Millenial Star 15:801-804, ênfase nossa)


Além da geração natural, biológica, de filhos dentro do convênio, o princípio da adoção também poderia trazer a um homem uma posteridade eterna, com homens dispostos a ingressarem em sua família como filhos.

Em 1873, Thomas B. H. Stenhouse explicava a lei da adoção nos seguintes termos:


Esta lei da adoção pressupunha que Joseph Smith havia sido escolhido e ordenado antes da criação do mundo para ser o cabeça e governante da “Última Dispensação”. Adão, Noé, Abraão, Moisés, Elias e Jesus tiveram cada um seu lugar na história do mundo como grandes homens a quem dispensações especiais haviam sido conferidas; mas a Joseph foi dada a “Dispensação da plenitude dos tempos”, a qual, ao harmonizar a obra dos profetas e apóstolos de todas as eras, deveria ser o coroamento da obra dos céus acima e da terra abaixo.

A declaração “nenhum homem vem ao pai senão por mim” era aplicada pelos apóstolos modernos a Joseph Smith, e agora a Brigham Young, e se ele tivesse mil sucessores seria igualmente aplicável a todos eles. (...)

Os apóstolos encontraram-se com os quóruns do sacerdócio e os ensinaram-lhes que “o reino” havia sido dado a Joseph, e que era necessário, para obter a salvação, que todos os santos fossem selados uns aos outros e finalmente a ele. (The Rocky Mountain Saints, p. 495-506)


Em seu relato, Stenhouse enfatiza o papel dos apóstolos na lei de adoção. Provavelmente, ele reflete o entendimento que muitos membros das Igreja tiveram da lei da adoção, quando o status passou a ser um critério importante. A adoção, no entanto, não dependia do ofício ocupado na Igreja sud e, como veremos na segunda parte, todo aquele que realizasse a salvação de seus antepassados mortos tinha que adotá-los como posteridades.
Para Joseph, sem ser selado a um pai, um homem colocaria em risco sua possibilidade de exaltação, uma vez que a única estrutura existente no mais alto grau do reino celestial seria familiar. Na mortalidade e na eternidade, esse pai – natural ou adotivo – seria seu superior na hierarquia do sacerdócio, a quem o filho deveria honrar eternamente.
Foi provavelmente com tal noção em mente que o apóstolo Orson Hyde representou graficamente o Reino à semelhança de uma árvore genealógica (ver imagem acima).

O diagrama acima mostra a ordem e a unidade do reino de Deus. O Pai eterno senta-se à cabeça, coroado Rei dos reis e Senhor dos senhores. Onde quer que as outras linhas se encontrem, senta-se um rei e sacerdote para Deus (...). Ele é um com o Pai, pois seu reino é somado ao de seu Pai (...). Tais reinos, que são um reino, são destinados a estender-se até não somente compreender este mundo, mas cada outro planeta que gira no firmamento azul do céu. (A Diagram of the Kingdom of God, Millenial Star, 09, 15 de janeiro de 1847, p. 23-24)


A exaltação, portanto, requeria a inclusão do indivíduo nesse reino familiar, para que fosse considerado um “herdeiro legal”. De outra forma, a jornada rumo ao mais alto céu do reino celestial não seria completa:

Uma coisa é ver o reino de Deus e outra é entrar nele. Devemos ter uma mudança de coração para ver o reino de Deus e aceitar as regras de adoção para entrar nele. (Joseph Smith, History of the Church 6:58; Teachings of the prophet Joseph Smith, p. 328; ênfase nossa.)


E para que isto acontecesse, como o cabeça da sétima dispensação, Joseph Smith seria o elo entre o próprio Deus e Seus filhos nesta terra, ligando dessa forma os dois lados do véu em uma única organização familiar.

Como em qualquer outra ordenança, o princípio de revelação é o que deveria governar a escolha, para saber onde o indivíduo deveria ser “enxertado” nessa grande árvore. Brigham Young, por exemplo, foi selado ao seu pai natural, e este último a Joseph Smith. Já John Taylor, apesar de seu pai natural ser um portador do sacerdócio, fala de Parley P. Pratt como seu “pai no evangelho” . [2]




NOTAS

[1] O Conselho dos Cinqüenta era uma organização cuja existência não era de conhecimento dos membros em geral, formado por esse número aproximado de homens, tendo Joseph Smith à sua frente como Profeta, Rei e Sacerdote. Designado por revelação como “O Reino de Deus e Suas Leis com suas chaves e poder e julgamento nas mãos de Seus servos, Ahman Cristo”, foi a organização que esteve à frente da campanha de Joseph à presidência dos Estados Unidos e do êxodo para as Montanhas Rochosas, agindo de forma independente do Quórum dos Doze e da Igreja sud como um todo durante os últimos anos de Joseph.

[2] Nauvoo Diary of John Taylor, BYU Studies Vol. 23, no. 3, p. 86.