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sábado, 5 de junho de 2010

Mansão de Nauvoo, um diálogo

Há algumas semanas atrás, recebi um e-mail sobre alguém me perguntando uma série de questões sobre o artigo do meu blog - Palavra de Sabedoria, suas origens e para não deixar aquela lacuna vaga, eis mais uma informação que está disponibilizada num relato do filho de Joseph Smith, Joseph Smith III e também registrado no conhecido 'History of the Church'

Como já sabemos, Joseph Smith recebeu a revelação sobre a Palavra de Sabedoria em 1833, e que ao que parecia, Joseph, o profeta, havia mantido a restrição ao consumo de bebida alcóolica apenas a título de conselho;

"Para ser enviada como saudação; não como mandamento ou coerção, mas como revelação e palavra de sabedoria..." D&C 89: 2"

Dez anos após o recebimento da revelação, aparece mais um relato que corrobora a idéia de que Joseph Smith, tinha a revelação apenas como tal, uma palavra de sabedoria, vejamos este diálogo entre Joseph e Emma Smith.

Joseph Smith não chegou a morar por muito tempo na mansão em Nauvoo, logo a transformara em um hotel, ele estava cansado de ser o foco das atenções de simples curiosos. Sua família ocupara grandes quartos do andar superior da mansão e a enorme sala abaixo havia se tornado em recepção e sala de jantar. Após o retorno de seu guarda-costas pessoal, Porter Rockwell, da prisão, Emma Smith foi até Saint Louis para comprar mobílias. Quando retornou, deparou-se com um bar bem equipado ao lado da recepção e lá estava Rockwell com seu longo cabelo, bem trançado e amarrado com uma fita, polindo copos e servindo whiskey.

“Joseph, qual o propósito deste bar nesta casa?” Ela inquiria de Joseph. O profeta que já tinha uma resposta preparada começou:

-Porter estava sem um tostão, ele merecia algo depois de ter passado nove meses preso na cadeia de Missouri, seus feitos foram  de uma ajuda incomensurável à todos nós. Além do mais, o bar ali, seria temporário e posteriormente seria transferido para o salão do barbeiro que estava em construção e ficaria do outro lado da rua.

“O que te parece?” Ela perguntou fulminante, “de um cabeça espiritual de um corpo religioso, manter um hotel com uma dispensa cheia de álcool para venda?”

Ele a lembrou de que todas as tavernas tinham bares e desde que era sabido que estabelecimentos de venda de bebida não eram permitidas em Nauvoo, havia de existir um lugar aonde distintos viajantes pudessem relaxar da forma que já estavam acostumados. O conselho da cidade de Nauvoo já havia emitido uma autorização de funcionamento apenas para Joseph para estocar e vender bebidas neste hotel e quem melhor e digno de confiança de deter este monopólio?

“Bem, Joseph,” disse em um baixo tom de voz enquanto o ouvia, “A mobília e os outros ítens que comprei  para a casa chegarão e você já tem alguém para cuidar dos seus negócios por aqui. Agora, eu vou pegar as crianças e vou para a casa antiga ficar por lá, pois não os criarei em meio à estas condições e situações que se impõe sobre nós, nem deixá-los-ei no meio deste tipo de gente que frequenta este lugar. Você tem a liberdade de fazer a sua escolha, ou o bar sai desta casa ou nós saímos.”

“Muito bem, Emma...” Joseph respondeu instantâneamente, “eu vou removê-lo já.”
E ele o fez. (Este diálogo foi relatado por seu filho em “Memoirs of President Joseph Smith.”,
Saints Herald, 22 de janeiro de 1935, p.110. Veja também History of the Church, Vol.VI, pp.111, 429)

Existem outros momentos na história da Igreja SUD, que indicam que não apenas Joseph Smith via a revelação de tal forma, mas outros líderes que lhe sucederam também, estes iremos destacar mais a frente.

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segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Palavra de Sabedoria – suas origens

Para quem já está integrado na cultura mórmon já conhece esta norma de conduta dentro da Igreja, mas para quem eventualmente lê o blog e não tem idéia do que venha a ser a Palavra de Sabedoria, eis a explicação.

A palavra de sabedoria ensina que todos os membros que queiram seguir adequadamente a fé mórmon, receber “saúde para seus umbigos e medula para seus ossos”, serem dignos de partilhar o sacramento aos domingos junto com toda a congregação e entrarem nos Templos sagrados e recebererem as ordenanças para si e para seus entes queridos já falecidos devem se abster de fazer uso de certas substâncias nocivas ao corpo humano, especificamente o uso de tabaco, álcool, café, chá preto, drogas prejudiciais. Este código de saúde passou a fazer parte da cultura mórmon através de uma revelação dada ao profeta fundador da Igreja em 1833 e foi publicada em seu livro de mandamentos e revelações modernas mórmon chamado de Doutrina & Convênios seção 89, reproduzida aqui na íntegra:

1 Uma Palavra de Sabedoria, para o benefício do conselho de sumos sacerdotes, reunido em Kirtland, e da igreja e também dos santos de Sião—
  2 Para ser enviada como saudação; não como mandamento ou coerção, mas como revelação e palavra de sabedoria, manifestando a ordem e a vontade de Deus quanto à salvação física de todos os santos nos últimos dias—
  3 Dada como princípio com promessa, adaptada à capacidade dos fracos e do mais fraco de todos os santos, que são ou podem ser chamados santos.
  4 Eis que, em verdade, assim vos diz o Senhor: Devido a maldades e desígnios que existem e virão a existir no coração de homens conspiradores nos últimos dias, eu vos adverti e previno-vos, dando-vos esta palavra de sabedoria por revelação—
  5 Eis que não é bom nem aceitável aos olhos de vosso Pai que alguém entre vós tome vinho ou bebida forte, exceto quando vos reunis para oferecer vossos sacramentos perante ele.
  6 E eis que deve ser vinho, sim, vinho puro de uva da videira, de vossa própria fabricação.
  7 E também bebidas fortes não são para o ventre, mas para lavar vosso corpo.
  8 E também tabaco não é para o corpo nem para o ventre e não é bom para o homem, mas é uma erva para machucaduras e todo gado doente, a qual se deve usar com discernimento e habilidade.
  9 E também bebidas quentes não são para o corpo nem para o ventre.
  10 E também em verdade vos digo: Todas as ervas salutares indicou Deus para a constituição, natureza e uso do homem—
  11 Toda erva em sua estação e toda fruta em sua estação; todas essas para serem usadas com prudência e ação de graças.
  12 Sim, também a carne de animais e a das aves do ar, eu, o Senhor, indiquei para uso do homem, com gratidão; contudo, devem ser usadas moderadamente;
  13 Agrada-me que não sejam usadas a não ser no inverno ou em tempos de frio ou de fome.
  14 Todos os grãos são indicados para uso do homem e dos animais, para ser o esteio da vida, não só para o homem, mas também para os animais do campo e as aves do céu e todos os animais selvagens que correm ou rastejam na terra;
  15 E estes fez Deus para uso do homem apenas em épocas de escassez ou fome excessiva.
  16 Todos os grãos são bons para alimento do homem, como também o fruto da videira; aquilo que produz fruto, seja na terra ou acima da terra—
  17 Contudo, o trigo para o homem e o milho para o boi e a aveia para o cavalo e o centeio para as aves e os porcos e para todos os animais do campo; e a cevada para todos os animais úteis e para bebidas suaves, como também outros grãos.
  18 E todos os santos que se lembrarem de guardar e fazer estas coisas, obedecendo aos mandamentos, receberão saúde para o umbigo e medula para os ossos;
  19 E encontrarão sabedoria e grandes tesouros de conhecimento, sim, tesouros ocultos;
  20 E correrão e não se cansarão; e caminharão e não desfalecerão.
  21 E eu, o Senhor, faço-lhes uma promessa de que o anjo destruidor passará por eles, como os filhos de Israel, e não os matará. Amém.

Bem, quais foram as circunstâncias pelas quais esta revelação nos foi dada e quais são seus desdobramentos hoje em dia? Ora, existem dois tipos de estórias, uma que é passada e repassada dentro da Igreja e outra embasada nas pesquisas históricas do panorama da época, vamos ver ambas.

Para quem é membro SUD, sabe que quando somos ensinados através das aulas, discursos, seminários e institutos da Igreja a estória que vem  sempre atrelada a revelação da palavra de sabedoria é a comumente conhecida de Brigham Young, que descreveu mais tarde no “Jounal of Discourses” que na época, Joseph Smith vivia em Kirtland, numa casa de dois andares, os irmãos se reuniam no andar de cima da cozinha e Emma Smith reclamava constantemente com Joseph da sujeira que deixavam após estes encontros pois “a primeira coisa que [os Irmãos] faziam era acender seus cachimbos e enquanto fumavam, falavam das grande coisas do Reino e cuspiam por todo o chão” e “isto fez com o que Profeta pensasse sobre a questão e ele pediu ao Senhor em oração sobre a conduta dos Irmãos usando tabaco e a revelação conhecida como palavra de sabedoria foi o resultado desta indagação.” Journal of Discourses, Vol.XII, p.158.

Bom, esta é a versão que mais ouvimos na Igreja SUD e até encontramos em alguns manuais, vejamos o panorama histórico da ocasião:

Joseph Smith estava em Kirtland, as coisas na igreja SUD pareciam seguir tranquilas, as únicas discussões mais ferrenhas eram sobre teologia, nestes três anos sem perseguições as únicas coisas registradas pela História da Igreja que aborreciam a paz eram eventuais más-condutas de caráter sexual, bebedeiras de whiskey e heresia.

O sumo-conselho se inclinava para banir de vez o consumo de bebidas alcólicas da cidade mais do que qualquer outra coisa, até mais do que o adultério. O estado de Ohio estava se agitando para instituir a abstinência de bebidas alcólicas. Em 1834 já haviam nos Estados Unidos cinco mil sociedades organizadas que se abstinham de álcool com mais de um milhão de adeptos. A maioria destes estavam concentrados em Nova Iorque e Ohio. Tabaco era chamado na época de “prostrador de nervos, droga paralizadora de almas, uma carnal e ímpia luxúria.” Café era condenado como excitador de paixões e tomar Chá acreditava-se ser tão mau quanto um ponche quente. O periódico popular “Journal of the Health”, publicado entre 1829 e 1835 ressaltava a idéia de que o uso moderado de carne era responsável pelo vigor dos irlandeses e recomendava uma dieta vegetariana.

Bem, estas eram as circunstâncias que antecederam a revelação da palavra de sabedoria que foram dadas acordo palavra do Senhor através de Joseph Smith “não como mandamento ou coerção” mas apenas como um bom conselho de saúde. Tanto é que encontramos relatos de Joseph Smith bebendo em várias ocasiões e inclusive fazendo registro disto em seu diário. Durante um casamento em janeiro de 1836 ele descreve:

“Nós partilhamos de um lanche e nossos corações se alegraram com o fruto da vinha. Isto de acordo com o padrão estabelecido pelo próprio Salvador e nós nos sentimos dispostos a partilhar de todas as instituições dos céus.” History of the Church, Vol.II, pp.252 ( para outros relatos veja também pp.369, 378 e 447)
Muito bem, esta era a concepção original da palavra de sabedoria, já tinha sido revelada por Joseph, e era tida apenas como tal qual foi revelada, um conselho, não mandamento e eventualmente Joseph e também outros líderes e membros tinha suas experiências com a bebida. Mas o que aconteceu para se tornar algo como vemos hoje como mandamento?

Quando o Sumo-Conselho resolveu fazer valer sobre si a palavra de sabedoria como mandamento em fevereiro de 1834 e que como regra quanto a desobediência acarretaria em privação de sua posição junto ao conselho, o que seria uma situação embaraçosa perante aos demais membros, Almon Babbit foi trazido à julgamento por beber, este se defendeu dizendo que sabia que era errado mas estava somente seguindo o exemplo do Presidente Joseph Smith.

Até o final daquele ano, no entanto, a pressão em torno de Joseph se tornou mais forte. Sidney Rigdon, um fanático entusiasta da abstinência do álcool em 4 de dezembro de 1836 forçou uma votação de total abstinência, Joseph concordou com a opinião e decisão dos demais membros do Sumo, como resultado, trocou o vinho do sacramento pela água e deixou o Sumo-Conselho fazer o pior;

A revelação eventualmente evoluiu para uma grande questão moral, o uso de chá, café, tabaco e álcool se tornou para o mórmon um divisor de águas, aonde rotulava seus membros como hereges ou desonrados. (Wilford Woodruff’s Journal, citado por Matthias F.Cowley em Wilford Woodruff, Salt Lake, 1909, p.65.)

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