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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

“Assim diz o Senhor” sobre James Strang: duas revelações não-canonizadas




Pouco parece ter sido explorado na história mórmon sobre a percepção que a hierarquia SUD teve do movimento dissidente de Strang. Duas revelações que não fazem parte do cânon de escrituras mórmons podem nos ajudar nesse entendimento. Neste artigo, apresento pela primeira vez em língua portuguesa estas duas revelações pouco conhecidas e tento destacar algumas das afirmações feitas dentro do seu universo discursivo.

Em James Strang e as testemunhas do Livro de Mórmon (partes 1 e 2), Flauber Barros esboçou um panorama desse movimento surgido após o assassinato de Joseph e Hyrum Smith e a conseqüente crise sobre a sucessão na Igreja. Ainda que minoritário desde o princípio, o movimento de Strang foi capaz de atrair personagens importantes da história mórmon, mesmo que a liderança reivindicada por ele não remetesse a nenhum dos prováveis princípios pelos quais o profeta Joseph poderia ser sucedido. O carisma pessoal de Strang e seus relatos sobre acontecimentos sobrenaturais ou proféticos devem ter pesado na influência exercida sobre seus seguidores e simpatizantes.

O impacto de Strang sobre a unidade da Igreja SUD talvez possa ser melhor dimensionado pela leitura de duas revelações recebidas a seu respeito por apóstolos da Igreja em 1846, em Nauvoo, reproduzidas a seguir. A primeira delas, recebida por Brigham Young diretamente para Reuben Miller, nunca foi publicada pela Igreja e é traduzida aqui integralmente; já a segunda, recebida por Orson Hyde, foi publicada no periódico Millenial Star e, devido à sua maior extensão, não está traduzida em sua totalidade.

Revelação recebida por Brigham Young para Reuben Miller em 30 de janeiro de 1846 em Nauvoo, Illinois.

Assim diz o Senhor a Reuben Miller através de Brigham Young – que Strang é um homem iníquo e corrupto e suas revelações são tão falsas quanto ele. Portanto, desvia-te da sua tolice – e nunca seja dito de Reuben Miller que ele já foi desviado e apanhado por tal disparate.[1]



O texto da revelação acima constrói um paralelo entre o indivíduo Strang e suas supostas revelações: uma vez que Strang é “iníquo e corrupto”, suas revelações são igualmente “falsas”, como uma expressão de seu próprio caráter. Sua liderança é classificada então em termos que remetem a um absurdo: “tolice” e “disparate”.

Revelação dada através de Orson Hyde em abril de 1846, em Nauvoo, Illinois.

Em minhas meditações nesta manhã, o Espírito do Senhor veio sobre mim e fui levado a escrever; estando pesaroso no meu espírito devido a falsas pretensões, por pessoas que almejam o mal, de ganhar poder e desviar o rebanho de Deus, sussurrou a mim e disse:
Homens maus, ambiciosos de poder, devem surgir entre vocês, e eles deverão ser levados pela sua própria vontade e não por mim. No entanto, eles são instrumentos em minhas mãos e lhes é permitido tentar meu povo e colher dentre eles aqueles que não são os eleitos, e aqueles que são indignos de vida eterna.

Não esteja pesaroso, nem de luto, nem seja alarmado. Meu povo conhece a minha voz e também a voz de meu espírito, e um estranho não seguirão; portanto, aqueles que seguem estranhos não são meu povo.

Eis que James J. Strang amaldiçoou meu povo por seu próprio espírito e não pelo meu.
Nunca em qualquer momento apontei aquele homem iníquo para liderar meu povo, nem pela minha própria voz, nem pela voz de meu servo Joseph Smith, nem pela voz de meu anjo: mas ele tentou enganar e Satanás o ajudou:

Mas antes do passado foi ele o ordenado para reunir o joio do campo e meus anjos o escolheram para fazê-lo porque ele era um homem iníquo, assim como Judas foi escolhido para trair seu Senhor. (...)

Que o homem que coloca sua confiança em mim não se perturbe sobre os seus direitos.
Os dignos terão seus direitos e nenhum poder pode evitá-lo, pois eu lhes darei os corações do meu povo, e sua voz é minha voz, assim como minha voz é a voz de meu pai; e o que ligarem na terra, eu ligarei no céu.

Mas os indignos não têm direitos a não ser esses: arrependimento ou condenação. [2]



A revelação recebida pelo apóstolo Orson Hyde chama a atenção pelo fato de nela a voz do Senhor falar em Strang como um dos “instrumentos” para reunir “aqueles que não são os eleitos”, “o joio do campo”, um papel para o qual Strang teria sido “ordenado” a cumprir, “assim como Judas foi escolhido para trair seu Senhor”, sugerindo uma pré-ordenação anterior à mortalidade. Enquanto a “tolice” e “disparate” mencionados na revelação a Reuben Miller sugerem que Strang poderia estar simplesmente mentindo ou fora de si, a revelação publicada no Millenial Star diz que Strang “tentou enganar e Satanás o ajudou”, apontando para a possibilidade de que os eventos sobrenaturais narrados por Strang tivessem sido produzidos por influência satânica.

Uma mensagem de conforto também caracteriza a revelação, com o Senhor falando a Orson para não se sentir “pesaroso, nem de luto, nem [ser] alarmado”. No contexto de confusão e disputa de liderança, os “direitos” dos apóstolos liderarem aquele processo de transição lhes é assegurado, à medida que “os corações do meu povo” são colocados em harmonia com aqueles que devem liderar. No final, a habilidade de reconhecer a liderança investida de autoridade divina repousa na identidade ou origem espiritual de cada indivíduo, remetendo à alegoria bíblica de que a voz do pastor é reconhecida apenas pelo rebanho que de fato lhe pertence: “meu povo conhece a minha voz e também a voz de meu espírito”. Haveria também aqui uma alusão ao evento conhecido com a transfiguração de Brigham Young, quando alguns santos disseram ter testemunhado Brigham Young falar com a voz do profeta assassinado?

A disputa pelo manto profético de Joseph Smith não poderia dispensar uma realidade espiritual reivindicada por cada um dos pólos envolvidos. Numa perspectiva histórica, as revelações recebidas por Brigham Young e Orson Hyde expressam uma continuidade do exercício de dons proféticos em que estava baseado o movimento iniciado por Joseph Smith. Publicada no jornal da Igreja, a revelação dada por intermédio de Orson Hyde transmitia ao santos que se mantiveram sob a liderança dos Doze a confirmação de que estavam do lado correto. Diante de todo o esforço e pressa para completar o templo de Nauvoo antes do êxodo para as Montanhas Rochosas, também lhes é assegurado um reconhecimento das ordenanças realizadas, almejando um efeito eterno: “o que ligarem na terra, eu ligarei no céu”.


NOTAS

[1] Lieut. Gen. Brigham Young Journal, 31 de janeiro de 1846, manuscrito no acervo da biblioteca da Universidade de Utah. Collier, Fred. Unpublished revelations. p. 104.

[2] Millenial Star, VII, no 10, May 15, 1846, p 157-158. Collier, Fred. Unpublished revelations. p. 104-105.

sábado, 14 de agosto de 2010

As testemunhas do Livro de Mórmon e James J. Strang, parte 2

 Em 11 de maio de 1846, Lucy Smith, numa carta a Reuben Hedlock, escreveu:
“Estou contente que Joseph designou a  J. J. Strang. É verdadeiro.”
Naquele mesmo dia, o ex-apóstolo Willian Smith informou Hedlock: “James J. Strang tem a designação e nós temos a evidência para isto. Toda a família Smith com excessão da viúva de Hyrum apoiou a Strang.” (1)

Willian posteriormente testificou: “Quanto as afirmações do irmão James J. Strang, como o Presidente de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Profeta, Vidente e Revelador, não tenho qualquer dúvida, quanto a sua designação pelo meu irmão[Joseph] e sua confirmação pela administração de anjos... por tanto Jeová tem revelado a mim. “ (2)

Os três Whitmers e Hiram Page leram o folheto de Strang na primavera de 1846 e escreveram cartas de lealdade.(3)

John Whitmer testificou: “Deus sabendo de todas as coisas, preparou um homem a quem ele visitou através de um anjo divino e lhe mostrou aonde estavam alguns registros antigos escondidos... o qual seu nome é James J. Strang.” (4)

Em setembro de 1846, o Voree Herald nomeou Harris como membro do sumo-conselho de Strang em Kirtland e anunciou seu chamado missionário na Inglaterra.(5)
Sobre esta questão, o editor publicou, “Estão envolvidos na fé conosco quase todos os melhores pregadores da Igreja, todas as testemunhas vivas do Livro de Mórmon, com excessão de uma,  e cada membro sobrevivente da família de Joseph Smith.” (6)

Esta testemunha viva que não se juntou com Strang era Oliver Cowdery. Seu pai, Willian Cowdery, converteu-se no verão de 1846. (7) Um ano depois, Oliver se mudou para Elkhorn, Wisconsin, distante doze milhas de Voree,  quartel general de Strang e se associou com a Igreja, muito embora é desconhecido o quão próxima era sua filiação.(8)

É interessante observar que, todos os que assinaram como testemunhas vivas do Livro de Mórmon, com excessão, possivelmente de Oliver Cowdery, aceitaram a James J. Strang como seu líder, chamado por anjos, placas de metal e sua tradução como autêntica.  Esta repetição de um padrão anterior de crença nos leva a questionar como tinha sido relativamente fácil para as testemunhas aceitar as placas de ouro de Joseph Smith como registro antigo. Observando suas formas de pensar nos leva a compreender as origens Mórmons em seus próprios termos.

(1) Lucy Smith à Reuben Hedlock, 11 de maio de 1846; Willian Smith à Reuben Hedlock, 11 de maio de 1846, ambos no publicados no Voree Herald 1 (junho de 1846): [1]; veja também "Brigham Young Manuscript History", 27 de janeiro de 1847, LDS Archives.

(2) Willian Smith à "Church of Jesus Christ of Latter Day Saints" [Strang], 28 de julho de 1846 em Zion's[Voree]Reveille 1 (dezembro de 1846): 3.


(3) Hiram Page à James J. Strang, Abril de 1846, parafraseado por Strang no Gospel Herald de 20 de janeiro de 1848, 206.


(4) Bruce N. Westergreen, ed., "From Historian to Dissident: The Book of John Whitmer (Salt Lake City: Signature Books, 1995), 194. John Whitmer mais tarde adicionou este testemunho.


(5) "Kirtland" no Voree Herald 1 (setembro de 1846): (1-2); veja também Orson Hyde em "Martin Harris", Latter-day saints Millenial Star, 15 de novembro de 1846, 124-28.


(6) "Kirtland" no Voree Herald, [4].

(7) idem., [2]

(8) Stanley R. Gunn, Oliver Cowdery: Second Elder and Scribe (Salt Lake City: Bookcraft, 1962), 189.


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terça-feira, 10 de agosto de 2010

As testemunhas do Livro de Mórmon e James J.Strang, parte 1


Joseph Smith não estava sozinho produzindo testemunhas de registros antigos. James J. Strang, assim como Joseph produziu onze testemunhas que testificaram que também viram e tocaram placas de metal antigas. Depois da morte de Joseph em junho de 1844, Strang afirmava ser seu sucessor na linha de profetas. (1)

No dia 1 de setembro de 1845, relatou que tinha sido visitado por um anjo que lhe disse sobre “o trecho do relato que estava selado de meu servo  Joseph Smith. A ti está reservado,”  disse o anjo. Strang disse que recebeu o “Urim e o Tumim”, os quais revelaram o local aonde estava o registro de “um povo antigo”. Duas semanas depois, quatro testemunhas – Aaron Smith, Jirah B.Wheelan, James M.Van Nostrand e Edward Weitcomb – desenterraram estas placas sob a direção de Strang. Numa afirmação conjunta, as testemunhas relataram como encontraram as placas e testificaram que viram e as examinaram.  As placas eram cobertas de “caracteres com uma linguagem que não temos conhecimento” (2)
Centenas de outros examinaram estas placas. C.Latham Sholes, editor do Southport Telegraph , escreveu após sua descoberta:  “As placas nos foram mostradas e nós visitamos e examinamos o local aonde as mesmas foram encontradas.” Sholes não se utilizou da opinião editorial mas afirmou que, em seu julgamento, Strang era “honesto e sério em tudo o que dizia” e que suas testemunhas estavam “entre os mais honestos e inteligentes da vizinhança.”(3)

Algum tempo depois que Strang traduziu seus escritos, ele anunciou que lhe havia sido revelado aonde as antigas placas de Labão estavam enterradas. (Este era o mesmo Labão de quem Néfi tomou as placas de latão em Jerusalém durante o reinado de Zedequias, rei de Judá.) Destes registros, Strang traduziu quarenta e sete capítulos do que chamou de  “O Livro da Lei do Senhor”. Sete testemunhas assinaram em seu prefácio da primeira edição:

TESTEMUNHO
Saibam todas as nações, tribos, línguas e povos a quem este Livro da Lei do Senhor chegar, que James J.Strang tem as placas... que nos foram mostradas . Nós examinamos  as placas com nossos olhos e as seguramos em nossas mãos . As gravações que elas contêm são belas e nos parecem ser uma obra antiga e de uma impressionante aparência com línguas orientais...
[As placas]  são 18 em número, cerca de sete polegadas por 3,8 de largura e nove polegadas de comprimento...

SAMUEL GRAHAM,
SAMUEL P.BACON,
WARREN POST,
PHINEAS WRIGHT,
ALBERT N.HOSMER,
EBENEZER PAGE,
JEHIEL SAVAGE. (4)

Samuel Graham era o escriba na tradução das placas de Labão. Mais tarde ele foi excomungado, mas não existe evidência direta que ele ou qualquer dos outros dez homens houvesse negado seus testemunhos.(5)

É interessante notar que três dos Whitmers- David, John e Jacob – e Martin Harris, Hiram Page, Willian Smith e Lucy Smith, todos seguiram a liderança de Strang de 1846 a 1847, mesmo que nenhum deles houvesse se encontrado com ele. Eles se tornaram “Strangitas” depois de lerem num folheto de janeiro de 1846 um nota do Voree Herald, um órgão oficial da Igreja de Strang. Ele relatava sua reunião com Joseph Smith, suas visitações de anjos, um relato de suas testemunhas de como as placas foram desenterradas e tradução de parte da primeira série de placas. (6)

(1)  James J.Strang, "Letter from Joseph Smith to James J.Strang," 18 de junho de 1844, em Voree Herald 1[W1] (Jan. 1846); Roger Van Noord, King of Beaver Island: The Life and Assassination of James Jesse Strang (Urbana: University of Illinois Press, 1988), 4, 7-10.

(2) James J.Strang, "Revelation given to James J.Strang," 1 setembro de 1845, Voree Herald 1 (Jan.1846): [3-4]; Van Noord, King of Beaver Island, 33-35. Nenhuma destas quatro testemunhas era Santo dos Últimos Dias.

(3) C.Latham Sholes, Editorial, 30 setembro de 1845, Southport [W1] Telegraph, 30 de setembro de 1845; Van Noord, King of Beaver Island, 35-36. Para mais veja Gospel [Voree, W1] Herald, 23 de setembro de 1847; 21 de setembro, 26 de outubro 1848)

(4) James J.Strang, Book of the Law of the Lord (St.James [Beaver Island], MI, 1851 & 1856), 2; Van Noord, King of Beaver Island, 97. Page e Savage era antigos membros SUD.

(5) Van Noord, King of Beaver Island, 56-57, 163-64.

(6) Voree Herald 1 (Jan.1846): [1-4]; Willian Smith a James J.Strang, 1 de março de 1846, em Voree Herald 1 (Julho de 1846); Lucy Smith e seis membros de sua família assinaram uma carta apoiando Strang.


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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Hyrum, o profeta rejeitado pelo povo

A chamada crise de sucessão iniciada com a morte de Joseph e Hyrum Smith em 1844 não foi a primeira grande polêmica sobre a hierarquia da Igreja e os papéis dos diferentes ofícios envolvidos. O ofício de Patriarca da Igreja, especialmente, foi objeto de um longo e complexo debate que só veio a ser encerrado em 1979, quando o último Patriarca da Igreja, Eldred G. Smith, foi feito autoridade geral emérita pelo presidente Kimball, extinguindo na prática o ofício.

Em seu apaixonado testemunho sobre os irmãos asassinados na cadeia de Carthage, John Taylor os chama de "o melhor sangue do século dezenove" (D&C 135:6). Joseph e Hyrum unidos na vida e na morte compartilharam muito do fardo da restauração do evangelho.
Ao ler sobre os planos de Joseph a respeito de seu irmão Hyrum, aprendemos, porém, que Hyrum deveria ter ocupado um lugar ainda maior na história da restauração.

Em Nauvoo, Joseph tentou colocar Hyrum Smith na posição de profeta da Igreja de Jesus Cristo, em função de seu papel como Patriarca. Os planos de Joseph, porém, não puderam ser totalmente implementados, uma vez que os membros não aceitariam a nova organização proposta, fazendo com que Joseph voltasse atrás frente ao risco de mais uma cisão na Igreja. Como resultado, Hyrum nunca chegou a exercer publicamente perante os membros seu papel de profeta, vidente e revelador. Único ofício recebido por linhagem numa organizção apostólica, o Patriarca da Igreja era, tal como so membros da Primeira Presidência e dos Quórum dos 12, apoiado como profeta, vidente e revelador.

Em 27 de maio de 1843, Joseph Smith declarou:

O ofício patriarcal é o mais alto ofício na igreja e o pai Smith conferiu este ofício a Hyrum Smith, em seu leito de morte
[1]

Joseph tinha em mente uma reforma na hierarquia da Igreja, como declarou publicamente em 16 de julho:

Disse que não profetizaria mais, e propus que Hyrum portasse o oficio de profeta para a Igreja, como era por direito de nascença. Irei fazer uma reforma e os santos devem considerar Hyrum, pois ele tem a autoridade, para que eu possa ser um Sacerdote do Deus Altíssimo.
[2]

No dia seguinte, Joseph insiste no mesmo assunto durante seu sermão para os santos:

Disse que não profetizaria mais; que Hyrum deveria ser o profeta.
[3]

Joseph passa então a considerar abertamente Hyrum como o profeta para a Igreja de Jesus Cristo. No dia 19 seguinte, ele encontra Hyrum na rua e pergunta:

Estou escrevendo aos irmãos, nosso novo profeta tem algo a dizer a eles?
[4]

Embora não tenhamos grandes detalhes sobre o sentimento de Hyrum à época, parece óbvio que ele aceitava o chamado dado através de seu irmão e estava disposto a cumprí-lo, como parte de seu chamado como Patriarca da Igreja.

A idéia de Joseph de que Hyrum deveria sucedê-lo (ainda em vida) no papel de profeta enquanto ele (Joseph) deveria ser "um sacerdote do Deus Altíssimo", só pode ser entendida no contexto vivido em Nauvoo, quando Joseph inicia a administração das investiduras, estabelecendo uma organização que passou a ser chamada de "Holy Order" ("Ordem Sagrada"), e estabelece um núcleo do Reino de Deus com o grupo conhecido como "Conselho dos 50".

Joseph provavelmente queria dedicar seus esforços a essas duas organizações, enquanto colocaria a Igreja de Cristo sob a direção profética de Hyrum. Para Joseph, isso provavelmente seria um avanço na restauração do sacerdócio sobre a terra, algo que deveria ir muito além da Igreja estabelecida em 1830. A falta de compreensão dos membros, porém, impediu a reforma pretendida por Joseph:

Na segunda-feira passada, certos homens vieram me ver pela manhã e disseram: "irmão Joseph, Hyrum não é um profeta, ele não pode dirigir a Igreja; você deve dirigí-la. E se renunciar, tudo dará errado; você nâo deve renunciar; se o fizer, a Igreja será dispersada. Senti curiosidade e perguntei: Não aprendemos que o sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque compreende profetas, sacerdotes e reis? Ver Apocalipse cap. 1, vers. 6. E eu avançarei seu Profeta a Sacerdote, e então a Rei - não dos Reinos desta terra, mas do Deus Altíssimo. Ver Apocalipse, cap. 5, vers. 10: "E para nosso Deus os fizeste reis e sacerdotes e les reinarão sobre a terra".
[5]

Vendo o quanto lhe poderia ser cara a mudança pretendida, Joseph vê-se forçado a recuar e manter a organização já conhecida dos santos na Igreja de Jesus Cristo.

Hyrum permanece então como Patriarca da Igreja (D&C 124:124), bem como "Presidente Assistente" de Joseph na primeira presidência (D&C 124:91), um ofício descontinuado após o assassinato de Joseph e Hyrum.

Como teria sido a Igreja, caso Joseph tivesse obtido sucesso em sua reforma? Como teria sido a sucessão após o martírio? Como foi o processo de "rebaixamento" do ofício de patriarca da Igreja até sua virtual extinção? O que Joseph planejava ainda restaurar? Estas são algumas das questões que nos vêm à mente ao estudar sobre este fato pouco conhecido da história da Igreja.



NOTAS: citações originais em inglês.

[1]"The patriarchal office is the highest office in the church, and Father Smith conferred this office on Hyrum Smith, on his deathbed."( Minutes of a Meeting, held May 27, 1843, MS. in Church Historical Department, citado por Quinn, "Mormon Succession," p. 202)

[2]"Said I would not prophesy any more, and proposed Hyrum to hold the office of prophet to the Church, as it was by birthright. I am going to have a reformation, and the Saints must regard Hyrum, for he has the authority, that I might be a Priest of the Most High God." (History of the Church, 5:510)

[3] Said he would not prophesy any more; Hyrum should be the prophet (HC 5:512)

[4] I am writing to the brethren, has our new prophet anything to say to them? (idem, 5:513)

[5] Last Monday morning certain men came to me and said: "Brother Joseph, Hyrum is no prophet--he can't lead the church; you must lead the church. If you resign, all things will go wrong; you must not resign; if you do the church will be scattered." I felt curious and said: "Have we not learned the Priesthood after the order of Melchizedek, which includes both Prophets, Priests and Kings: see Rev. 1 Chap., 6th v., and I will advance your Prophet to a Priest, and then to a King--not to the Kingdoms of this earth, but of the Most High God. See Rev. 5 Chap., 10th v.--'Thou hast made us unto our God, Kings and Priests, and we shall reign on the earth.'" (Teachings of the Prophet Joseph Smith, p. 318)

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